Atualizado em: 6 de outubro de 2026

A doença de alzheimer (DA) é uma patologia neurodegenerativa crônica e progressiva, sendo a causa mais comum de demência em todo o mundo. Os processos neuropatológicos que levam ao desenvolvimento da doença começam muitos anos antes do início dos sintomas de comprometimento cognitivo, como perda de memória e problemas de linguagem.

Suas primeiras alterações neuropatológicas são o acúmulo de placas de β-amiloide (Aβ) e emaranhados neurofibrilares intracelulares (NFTs) compostos pela proteína Tau. A depuração cerebral reduzida e a produção excessiva de depósitos Aβ podem ocorrer até 20 anos antes do início do comprometimento cognitivo. A proteína Tau hiperfosforilada e os NFTs podem ser detectados 10 a 15 anos antes do começo dos sintomas clínicos.

De acordo com os critérios mais recentemente propostos, o diagnóstico da doença de alzheimer depende de biomarcadores da patologia amiloide (diminuição de Aβ 1-42 ou da razão Aβ 1-42/Aβ 1-40 no líquido cefalorraquidiano — LCR —) ou retenção aumentada do traçador de tomografia por emissão de pósitrons (PET) amiloide; e patologia Tau (retenção aumentada do traçador no PET Tau e aumento nos níveis de tTau e pTau181 no líquido cefalorraquidiano).

Os sintomas neurocognitivos iniciais mais comuns da doença de alzheimer são perda de memória e, em alguns casos, depressão e apatia. Nos estágios intermediário e avançado surgem desorientação, confusão mental, alterações comportamentais e distúrbios da fala e linguagem. Além do histórico médico do paciente, vários testes devem ser realizados para avaliar o declínio da função cognitiva relacionada à doença, incluindo exames neuropsicológicos, neuroimagem e avaliação de marcadores bioquímicos.


Critérios Diagnósticos do Espectro da Doença de Alzheimer

O desenvolvimento de novos métodos e de uma compreensão mais profunda dos mecanismos biológicos resultaram em melhorias nos critérios diagnósticos e avanço nos ensaios clínicos. Inicialmente, a doença de alzheimer era diagnosticada apenas com base nos sintomas clínicos, o que resultava no reconhecimento da patologia em um estágio tardio e não permitia um diagnóstico preciso.

Um marco na detecção da doença e do comprometimento cognitivo leve (CCL) ocorreu em 2011, quando os biomarcadores foram considerados um dos métodos de diagnóstico apropriados. A aplicação de biomarcadores no líquido cefalorraquidiano na prática clínica rotineira permite a detecção da doença em estágios muito iniciais e assintomáticos (pré-clínicos), passando pela fase de pródromo (CCL) até a fase sintomática plena.

Outros consensos propuseram diagnosticar a doença de alzheimer como uma entidade clínica e biológica com base em biomarcadores in vivo. Atualmente, os biomarcadores no LCR e de RNM/PET fazem parte dos critérios diagnósticos e podem auxiliar:

  • No diagnóstico clínico da doença, especialmente quando os sintomas são inconclusivos ou atípicos;
  • Na pesquisa clínica, permitindo o estudo da evolução de diferentes patologias ao longo do tempo;
  • Na observação de tendências temporais na patologia e sua prevalência e morbidade;
  • No estabelecimento de diagnósticos diferenciais;
  • No diagnóstico precoce.

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Interpretação dos Biomarcadores Liquóricos no Diagnóstico

A maioria dos pacientes com um diagnóstico clínico de doença de alzheimer exibe um típico “perfil de biomarcadores de DA”, composto por valores elevados de tTau e pTau181 e níveis diminuídos de Aβ1-42. No entanto, problemas de interpretação podem surgir, especialmente quando nem todos os biomarcadores são patológicos.

Nesse caso, uma das soluções propostas é usar a escala de probabilidade para avaliar se processos patológicos característicos da doença de alzheimer estão ocorrendo no paciente com comprometimento cognitivo. Um exemplo de aplicação é o algoritmo Erlangen Score.

A pontuação final é obtida somando os resultados dos biomarcadores no LCR, incluindo Aβ1-42 (0 = normal; 1 = patologicamente limítrofe; 2 = patológico) e Tau/pTau (0 = normal; 1 = patologicamente limítrofe; 2 = patológico). O resultado varia de 0 (neuroquimicamente normal) a 4 (DA neuroquimicamente provável).

Outro sistema amplamente recomendado pelo Grupo de Trabalho Internacional (IWG) é o sistema de classificação ATN (amiloide, Tau e neurodegeneração):

  • “A” (Amiloide): CSF Aβ ou amiloide PET;
  • “T” (Tau hiperfosforilada): CSF p-Tau ou Tau PET;
  • “N” (Neurodegeneração): Atrofia na ressonância magnética estrutural, PET FDG ou Tau total no LCR.

Outro avanço importante é o consenso interpretativo dos perfis bioquímicos baseado em dados de 40 centros de pesquisa em todo o mundo. Cada perfil recebe uma pontuação binária de normal (N) e patológico (P), facilitando a padronização e comparação dos resultados.


Estágio Pré-Clínico da Doença de Alzheimer

Os biomarcadores no líquido cefalorraquidiano possibilitam a detecção de alterações patológicas antes do início dos sintomas cognitivos, com alta precisão, sensibilidade e especificidade. Contudo, o estágio pré-clínico da doença de alzheimer é restrito à pesquisa científica e ainda não é aplicado na prática clínica rotineira.

Resultados positivos de biomarcadores nas fases iniciais indicam que os processos patológicos já começaram. Por outro lado, esses processos não estão tão avançados a ponto de se manifestarem na vida cotidiana, não havendo certeza absoluta de que a progressão sintomática ocorrerá em curto prazo.


Recomendações e Desafios no Diagnóstico Precoce

Um diagnóstico precoce permite que o paciente, seus familiares e médicos desenvolvam planos de cuidado e escolham o tratamento mais adequado. A prevalência da doença de alzheimer aumenta com a idade: atinge 5,3% das pessoas entre 65 e 74 anos, 13,8% entre 75 e 84 anos e 34,6% daqueles com 85 anos ou mais.

O gene APOE-e4 tem o impacto genético mais significativo no risco de desenvolvimento da doença de início tardio. Além dos fatores não modificáveis, as diretrizes publicadas pela Comissão Lancet sobre prevenção e cuidados com a demência sugerem que abordar fatores de risco modificáveis (como estilo de vida, tabagismo, pressão arterial e dieta) pode prevenir ou atrasar até 40% dos casos de demência.

Avanços no desenvolvimento de métodos ultrassensíveis também têm permitido a testagem de biomarcadores no sangue. Contudo, a sensibilidade e a especificidade dos exames no sangue ainda não correspondem ao padrão-ouro oferecido pelo líquido cefalorraquidiano.


Conclusão

O diagnóstico preciso e precoce da demência por doença de alzheimer requer a integração de três pilares fundamentais: aplicação de testes neuropsicológicos, análise de biomarcadores no líquido cefalorraquidiano e exames de neuroimagem. A omissão de qualquer uma dessas etapas pode impactar diretamente na sensibilidade e precisão do diagnóstico.

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Bibliografia Consultada

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