Atualizado em: 6 de outubro de 2026

A interpretação do LCR na sífilis e a indicação da punção liquórica são fundamentais no diagnóstico e acompanhamento dessa doença sexualmente transmissível. Causada pela bactéria Treponema pallidum, a infecção apresenta três fases clínicas:

  • Primária: Caracterizada pelo cancro duro nos órgãos genitais.
  • Secundária: Apresenta lesões cutâneas e linfoadenomegalia.
  • Terciária: Curva para o comprometimento neurológico e cardiovascular.

Além da via sexual, a transmissão ocorre verticalmente ou por transfusão sanguínea. De acordo com o Boletim Epidemiológico de Sífilis do Ministério da Saúde, em 2018 a taxa de detecção de sífilis adquirida foi de 75,8 casos/100.000 habitantes, com impacto significativo em mulheres jovens de 20 a 29 anos.


O Risco da Neurossífilis e os Sintomas Neurológicos

A neurossífilis é uma complicação grave presente em cerca de 3,5% dos casos de sífilis. A coinfecção pelo vírus HIV aumenta em duas vezes o risco do seu desenvolvimento.

A neuroinvasão pelo Treponema pallidum ocorre em 40% dos infectados. Destes, 30% mantêm infecção persistente e 70% apresentam clearance bacteriano no Sistema Nervoso Central (SNC). Entre os casos persistentes, 20% evoluem com sintomas clínicos.

As manifestações neurológicas variam de acordo com o tempo de infecção:

  • Fase precoce (Meningovascular): Predominam meningite, acidente vascular cerebral (AVC), lesão de nervos cranianos e mielopatia progressiva.
  • Fase tardia: Pode surgir Paralisia Geral (demência, ataxia, alterações pupilares como a pupila de Argyll-Robertson) e o Tabes Dorsalis (marcha atáxica, sinal de Romberg e paraparesia).

Quais são as Indicações da Punção Liquórica na Sífilis?

Para orientar a interpretação do LCR na sífilis, a coleta do líquido cefalorraquidiano por punção lombar é indicada nos seguintes cenários:

  • a) Suspeita de sífilis congênita;
  • b) Presença de manifestações visuais ou neurológicas compatíveis com neurossífilis;
  • c) Tratamento da sífilis sem a adequada negativação do VDRL;
  • d) Pacientes HIV positivos com VDRL > 1/32 (ou 1/42), contagem baixa de CD4 ou sintomas neurológicos associados.

Como é Feita a Interpretação do LCR na Sífilis?

Como não existe um marcador único totalmente sensível e específico para a neurossífilis, a interpretação do LCR na sífilis baseia-se na combinação de parâmetros indiretos, citologia e testes sorológicos.

Parâmetros Analisados no LCR

  • Citologia: O aumento da celularidade (pleocitose) corrobora o diagnóstico e auxilia na decisão terapêutica. Em pacientes HIV+, considera-se um valor de corte celular maior.
  • Concentração de Proteína: A proteinorraquia (proteína > 45 mg/dL) atua como um importante indicador inflamatório.
  • Imunoprodução Intratecal: A eletroforese de proteínas pode evidenciar aumento da fração gama. O índice de IgG e a pesquisa de bandas oligoclonais apoiam o diagnóstico.

Testes Treponêmicos e Não-Treponêmicos no LCR

Os exames imunológicos são peças-chave na interpretação do LCR na sífilis:

  • VDRL no LCR (Não-treponêmico):** Possui alta especificidade e, quando positivo, é considerado confirmatório. Serve também para monitorar a resposta ao tratamento. Contudo, sua sensibilidade é de apenas 50%.
  • Testes Treponêmicos (Imunofluorescência / ELISA):** Apresentam alta sensibilidade. São indicados para afastar a doença quando o VDRL é negativo. Não servem para controle de cura, pois podem permanecer positivos indefinidamente.

Atenção: Em punções lombares traumáticas com contaminação por sangue, podem ocorrer resultados falso-positivos nos testes treponêmicos.


Conclusão

Diante das múltiplas apresentações clínicas, a correta interpretação do LCR na sífilis exige a análise conjunta da citologia, bioquímica e sorologia. Se você precisa de suporte especializado em diagnóstico liquórico, acesse nossa página de contato e tire suas dúvidas com nossa equipe.


BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

  • Boletim Epidemiológico de Sífilis, Ministério da Saúde (2019)
  • MARRA, Christina M. Neurosyphilis. Continuum (Minneap Minn), v. 21, p. 1714-1728, 2015.
  • TUDDENHAM, Susan; GHANEM, Khalil G. Neurosyphilis: Knowledge Gaps and Controversies. Sexually Transmitted Diseases, v. 45, p. 147-151, 2018.
  • ROPPER, Allan H. Neurosyphilis. The New England Journal of Medicine, v. 381, p. 1358-1363, 2019.
  • HOBBS, E. et al. Neurosyphilis in patients with HIV. Practical Neurology, v. 18, p. 211–218, 2018.
Post Views: 3.285